Hoje quem está aqui com a gente é a Juliana, que escreve o blog
Contos de uma Mãe Pandora. Ela vai nos contar um pouco da sua trajetória
de super mãe de dois irmãos biológicos que nasceram em outra família.
Eu tenho o maior respeito e admiração por pais adotivos, como a Juliana e seu marido, assim como outros casais de amigos meus. Acredito que são pessoas de uma grande coragem, que foram capazes de enfrentar todas as barreiras e se tornarem pais.
Descomplicando a Vida by Juliana
Uma das coisas que ultimamente tenho pensado muito é na questão da complicação, da forma como somos tendenciosos a transformar o que é simples em complexo e como isto nos prejudica, toma tempo... emperra a vida.
Eu por exemplo, tive vários momentos assim e hoje procuro descomplicar tudo. Mas para explicar melhor o que estou tentando escrever, tenho que resumir um pouquinho sobre uma parte da minha história.
Voilà!
Quando descobri que tinha uma doença chamada Endometriose, pirei. Pirei principalmente pois ela chegou com tudo, tomando grande parte dos meus sonhos. E anos a fio de tratamento, ela foi implacável e eu me tornei uma mulher infértil.
Após o casamento, quando o relógio biológico da maternidade apitou, resolvi procurar um grande centro de reprodução humana em São Paulo e ao custo de um carro zero km e muito desgaste emocional, fiz três Fertilizações in Vitro e cheguei a ficar grávida duas vezes, mas estas não vingaram e foram dois abortos retidos.
As palavras aborto, curetagem, ultrassom, eram novas em um vocabulário cheio de esperanças. Doeu.
Sofri muito, muito mesmo. Acho que só quem vive uma situação como esta consegue ter a dimensão deste sentimento. Eu me sentia estranha, com vergonha de mim mesma. Primeiro, por não conseguir engravidar naturalmente e segundo por não conseguir levar adiante as gravidezes que aconteceram. Terapia.
Corri para a terapia antes que outro tipo de doença tomasse conta de mim. Eu já não me reconhecia mais. Sempre fui super alegre, cheia de energia e de repente eu me sentia a pior pessoa do mundo. Mais terapia.
Foi então que eu e meu marido, diante todo o desgaste das tentativas frustradas, resolvemos parar com os tratamentos e nos inscrever no Cadastro Nacional de Adoção.
É, mas infelizmente, ainda existe muito preconceito e tabu no que diz respeito ao assunto. Família e amigos se mostraram preocupados com nossa decisão e sugeriam muitas vezes que havíamos desistido muito cedo do tratamento e que deveríamos perseverar mais...
Nestas idas e vindas da vida, nos mudamos para a Noruega. Lá, devido à uma cirurgia de Endometriose a qual fui submetida no Hospital Universitário de Oslo, me encaminharam para o Setor de reprodução humana e gratuitamente, fiz mais algumas tentativas de Inseminação Artificial. Mas desta vez, nada aconteceu...
Então, um certo dia na Noruega, recebi um telefonema de minha irmã, dizendo que havia tomado conhecimento de que haviam dois irmãos em um abrigo no interior do Brasil e que infelizmente, o mais novo, seria adotado por uma família, deixando seu irmão, pois a família adotante queria apenas uma criança de até dois anos.
Ficamos chocados. Eu nem se quer tinha visto o rostinho deles, mas a história havia me tocado profundamente. Não conseguia imaginar dois irmãos unidos sendo separados por um ato do destino. Sempre imaginava o sentimento do mais velho ao ficar no abrigo e o mais novo ao ser levado sem a presença daquele que sempre o protegeu. Indignação. Amor. Maternidade.
Neste momento, percebi que era mãe deles. Eu não dormia mais, tamanha era a minha preocupação...
E foi assim, mesmo vivendo na Noruega, contratamos um advogado para nos representar e entramos com o pedido da guarda provisória dos irmãos. Infelizmente, fomos vítimas de preconceito por morar fora do Brasil, enfrentamos a morosidade do processo como a maioria das famílias e quase desistimos perante muitos percalços que nos colocaram, mas decidimos nos manter firmes em nossa decisão. Apesar de ter uma noção dos desafios que estavam por vir, queríamos os dois, unidos, formando conosco, uma única família.
E foi assim que descomplicamos grande parte da história.
Hoje, eu sou mãe há quase dois anos, de Gabriel (5a10m) e Lucas (4a6m) e vivemos atualmente na Suíça.
O amor que eu e meu marido sentimos por nossos filhos é de uma intensidade tão grande, que posso afirmar com toda certeza de que amor é o mesmo, as alegrias, as conquistas, os desafios, tudo é intenso.
Sou mãe!! Babo, sou coruja, dou bronca, choro de emoção, de tristeza... Vivo minha maternidade da forma mais transparente possível, sem complicações. Assumo minha história e respeito a deles com muito orgulho.
Pra que complicar, né?
Ah! E além deste assunto, conto um monte de histórias sobre maternidade, vida de mulher e expatriada no blog
Contos de uma Mãe Pandora. Passa lá para um chá, uma conversa de quintal...